OS ANCESTRAIS DE PEDRO II

 

 

Considerado um dos homens mais sábios do seu tempo, coração magnânimo, defensor dos pobres e oprimidos, poeta e poliglota, D. Pedro de Alcântara, filho de D. Pedro I e Dona Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, nasceu às duas e meia horas do dia 2 de dezembro de 1825, no palácio da Quinta da Boa Vista (São Cristóvão) no Rio de Janeiro, e faleceu num modestíssimo hotel, em Paris, a 5 de dezembro de 1891.

Durante sessenta e seis anos de vida fecunda, altamente espiritualizada, toda ela vivida em benefício da pátria, da família, dos entes queridos, jamais cometeu Pedro de Alcântara ato algum que lhe revelasse a origem hereditária, as taras e enfermidades próprias do pai – um estróina – ou mesmo do avô, D. João VI, um tipo vulgaríssimo, inculto, asqueroso e desprezível, de acordo com os registros de cronistas e historiadores respeitáveis.

Mas, uma força imponderável parece ter guiado os destinos de Pedro II, antes mesmo de nascer no corpo carnal, em pleno mês de festejos natalinos na Quinta da Boa Vista, na cidade mais importante do Brasil! Que mistério estaria envolvendo a vida do magnânimo Imperador antes daquele memorável 2 de dezembro de 1825?! Porventura estariam os deuses ou os espíritos do Astral Superior reunidos em assembléia pacífica, objetivando abrir caminhos, traçar rotas, determinar roteiros, guiar, enfim, os passos do futuroso monarca nestas terras do continente?

Tudo nos leva a crer nos desígnios divinos!

De fato, D. Pedro não recebeu os estigmas de sua família. Os fatores negativos dos seus ancestrais parece que jamais o atingiram. Dos avós, d. Carlota Joaquina e D. João VI, nada poderia herdar de bom, pois rezam as crônicas que esse casal jamais se entendeu; foram sempre desencontrados em tudo! Dois temperamentos que “uivavam d estarem juntos. Nem sequer para atrair o Rei tinha a espanhola feitiços de mulher. Dona Carlota era horrenda! Todos os que a viram, sem exceção, deixaram dela um retrato amedrontador” – escreve Paulo Setúbal(*).

Sobre a curiosa mulher de D. João VI temos ainda este depoimento da Duquesa de Abrantes, nos seus “Souvenirs d’une ambassade et d’une séjour en Espagne et en Portugal”, que nos diz textualmente:

“Os olhos eram pequenos, desiguais, duma expressão má e zombeteira. O nariz quase sempre inchado e vermelho. A boca, guarnecida de maus dentes, uns enegrecidos, outros amarelos, dispostos obliquamente. A pele, áspera e curtida. Para cúmulo da feiura, tinha sempre espinhas em supuração. Os braços, que usava nus, eram chatos, ossudos e, acima de tudo, muito cabeludos…”

Essa mulher, assim feia fisicamente, tinha quenturas eróticas no sangue. A febre de amor incendiava-a com labaredas furiosas. As suas aventuras andaram de boca em boca, para escândalo geral.

O escritor Alberto Pimentel, maliciosamente, fala-nos dos seus romances com o Marquês de Marialva, embora “as gulas da rainha descessem muitíssimo mais baixo…” Pelo que se vê, um tipinho reles essa dona Carlota Joaquina, avó do futuro Imperador.

E que dizer dessa rainha em relação ao seu ódio pelo Brasil? Afirmam os cronistas que a mulher sempre nutriu aversão por nossa terra e nossa gente. Dentre as expressões injuriosas que ela, amiúde, externava contra o Brasil, conta-se esta:

“-Vou ficar cega quando chegar em Lisboa! Pudera! Vivi treze anos no escuro, só vendo negros…”

E quando chegou à capital lusa, Dona Carlota arremessou os sapatos ao Tejo, calçados que levara do Rio, porque “não queria pisar em terra de brancos com os sapatos que vinham de terra de negros…”

Espanhola de má língua! – acentua Setúbal – esquecia-se que foi aqui, na terra dos negros, que ela se livrou da fúria de Bonaparte. Esquecia-se que, por se ter asilado aqui, foi que o marido conservou aquela trepidante coroa que lhe resvalava da cabeça. Isso mesmo apregoava Bonaparte, lá em Santa Helena, quando exclamava, referindo-se a D. João :

“-Aquele tratante, fugindo para o Brasil, foi o único que me escapou!”

Escandalosa e anormal, Dona Carlota Joaquina foi a nossa primeira rainha. Como fugiria D. Pedro II a tão nefasta influência consangüínea?

E quer dizer de sua majestade, D. João VI?

Um rei por acaso, covarde, fujão, glutão, que se comprazia em comer seus três franguinhos pela manhã e outros três à tarde, um devasso, imoral, sem ânimo e sem caráter.

Famosa ficou na história a fuga dos fidalgos de Bragança naquela “noite da covardia” – de novembro de 1807 quando, enfrentando copiosa chuva, deixou a família real nas terras portuguesas, rumo ao Brasil, atendendo aos conselhos do ministro inglês Lord Strangford. A Rainha D. Maria I, louca desde 1792, em brados de desespero, em gritos de protesto, produziu grande escândalo no cais. “Foram, aliás, seus gestos alucinantes, – como lembra Oliveira Martins, – o único vislumbre de vida, pois o brio, a força, a dignidade portuguesa, acabavam ali nos lábios ardentes de uma rainha doida…”

Esses, os ancestrais do nosso grande e inesquecível Pedro II.

E que dizer dos seus genitores?

D. Pedro I – um estróina, um inveterado, um devasso, um homem de atitudes imponderáveis, com altos e baixos, fruto de um ambiente sem escrúpulos, de uma educação defeituosa, só poderia dar maus exemplos ao filho pequenino, quando se casou pela segunda vez com dona Amélia de Leuchtemberb, “mulher de instrução notável e de grandes virtudes”, conforme linhas adiante veremos.

No entanto, há que ressalvar-se a presença da mão de D. Pedro II, dona Carolina Josefa Leopoldina, primeira imperatriz do Brasil, nascida em Viena em 22 de janeiro de 1797, filha do Imperador Francisco I, da Áustria.

Casou-se dona Leopoldina com Pedro I a 13 de maio de 1817 e as cerimônias do enlace foram as mais ruidosas festas já realizadas no Rio de Janeiro. Houve iluminações públicas e particulares, obeliscos, três dias de espetáculo com carros alegóricos, o circo preparado no Campo de Santana, corrida de touro, um festão jamais sonhado pelos brasileiros naqueles dias tranqüilos…

Dona Leopoldina gostava muito do estudo da mineralogia e da botânica, tratando, por isso, de mandar vir da Europa valiosa coleção de minérios, transplantando para cá inúmeras qualidades de plantas européias, as quais aqui se aclimataram facilmente. Também vários sábios naturalistas foram contratados em comissão especial, deixando no Brasil os frutos de sua cultura e dos seus estudos, começo de nossa formação científica.

Dizem porém os estudiosos, que Dona Leopoldina trazia como dote as taras pesadíssimas dos Bourbons de Nápoles e de Espanha. Era muito inteligente, como afirmamos, porém, era feia, baixa, atarracada, de rosto genuinamente alemão, indiferente pela vida conjugal. Loira, de olhos azuis muito claros, tinha os lábios muito pronunciados e uma fisionomia muito séria e pouco amável.

Dessa mulher – vítima dos desregramentos do marido volúvel e infiel – herdaria D. Pedro II, certamente, o gosto pelos estudos, o amor à ciência, o espírito de pesquisa, a tranqüilidade necessária para governar um vastíssimo país durante tantos anos.

Por volta de 1822, quando o Regente esteve em Minas Gerais e em São Paulo, cuidando de assuntos públicos, Dona Leopoldina chegou a assumir a regência do Império. E não decepcionou, agindo em favor dos brasileiros. Também por ocasião da Independência, quando Pedro I proclamou a nossa liberdade às margens lendárias do Ipiranga, D. Leopoldina aguardou a chegada do esposo e com ele se associou no regozijo pelo glorioso evento.

Era ela a primeira Imperatriz do Brasil a 12 de outubro de 1822! Resignada que era, não desceu jamais de sua dignidade, mesmo sabendo das ligações amorosas de seu estouvado marido com a bela Domitila de Castro, a célebre Marquesa de Santos, apesar de todo o falatório da corte… Graças a essas atitudes, tornou-se queridíssima e respeitada por seus súditos brasileiros. Arrojada cavaleira, gostava da caça e em seus últimos anos de vida praticou esse esporte, talvez buscando nele um pouco de lenitivo para sua dores íntimas. Faleceu no dia 11 de dezembro de 1826, longe de D. Pedro, que estava no sul do país, a fim de animar com sua presença os comandantes na guerra da Cisplatina.

A notícia de seu desenlace comoveu todos os recantos do Brasil e houve luto geral, pois dona Leopoldina era realmente muito querida e respeitada.

Do casamento com o Príncipe D. Pedro, depois Imperador do Brasil, teve dona Leopoldina era realmente muito querida e respeitada.

Do casamento com o Príncipe D. Pedro, depois Imperador do Brasil, teve dona Leopoldina os seguintes filhos:

1.      Dona Maria Glória nascida a 4 de abril de 1819, rainha de Portugal, sob o nome de Maria II (1819-1853) obesa e prognata, esposa, em 1835, de Augusto Carlos Eugênio Napoleão, duque de Leuchtemberg e de Santa Cruz; e, em 1836, de Fernando Augusto Francisco Antonio, príncipe de Saxe Coburgo Ghota e Duque do Porto, rei titular de Portugal com o nome de D. Fernando II; dona Maria não teve filhos no primeiro casamento.

2.      D. Miguel, nascido em 1820 e falecido muito precocemente;

3.      D. João Carlos Borromeu, príncipe da Beira e herdeiro presuntivo do trono, nascido em março de 1821, morto aos 11 meses de idade, vítima de meningite;

4.      Dona Maria Januária Carlota, nascida em 1822, morta em 1901, herdeira presuntiva em 1835, esposa em 1848 de Luís de Bourbon, príncipe das duas Sicílias e duque de Águila, ao qual deu dois filhos. Era pequena de talhe, mas possuía excelentes qualidades, conforme assinala o professor Boullanger, preceptor dos príncipes;

5.      Dona Paula Mariana, nascida em fevereiro de 1823 e falecida em março de 1898. Desposou em 1843, a Francisco de Orleans, príncipe de Joinville. Era inteligente e muito bondosa, “uma dessas mulheres que possuem, em alto grau, o dom de se fazerem queridas”. Teve dois filhos;

6.      Dona Francisca Carolina Joana, nascida em agosto de 1824 e falecida em março de 1898. Desposou em 1843, a Francisco de Orleans, príncipe de Joinville. Era inteligente e muito bondosa, “uma dessas mulheres que possuem, em alto grau, o dom de se fazerem queridas”. Teve dois filhos;

7.      D. Pedro II (Pedro de Alcântara) louro, equilibrado, nascido a 2 de dezembro de 1825 e falecido a 5 de dezembro de 1891, em Paris, figura extraordinária de nossa história, de quem falaremos com minúcias, abordando-lhe a personalidade marcante, sob vários ângulos, lembrando-lhe a fecunda vida em prol do bem comum, do berço ao túmulo, o seu acendrado amor pelo Brasil, mesmo depois de morto, através da psicografia de Chico Xavier.

Quando a pátria, feliz e agradecida por seu filho ilustre, festeja o sesquicentenário de seu nascimento, rememorando-lhe a fulgurante trajetória pelos caminhos terrenos, promovendo cursos, exposições, congressos e simpósios, reproduzimos as passagens principais do Monarca Magnânimo neste livro de saudade-saudação. Aqui o paciente leitor encontra as explicações do mais-além, que justificam a personalidade ímpar de D. Pedro II, escolhido para promover a organização social e política do Brasil, Pátria do Evangelho, Coração do Mundo, naqueles dias que sucederam à proclamação da independência.

Contrariando todas as leis genéticas, Pedro de Alcântara, afeito a renúncias e devotamentos, aceitando a incumbência de unificar a pátria brasileira, nasceu para amparar os fracos, corrigir as leis despóticas, libertar os escravos, e inaugurar um novo período de progresso moral nestas terras do Cruzeiro, amparado por Jesus, o único e verdadeiro Amigo.

Como e quando recebeu D. Pedro essa altíssima e misteriosa missão?

 

(*) “Nos Bastidores da História”, Edição Saraiva, São Paulo, 5ª edição, pág; 29

 

Do livro CHICO XAVIER D. PEDRO II E  O  BRASIL de WALTER  JOSÉ FAÉ

 

D. Pedro II
D. Pedro II

 

 

 

A ARTE PURA E OS ARTISTAS VERDADEIROS

 

 


 

Emmanuel

 

 

Num momento em que assistimos ao abastardamento da arte, sobretudo no campo da música, da dança, da literatura e em quase todas as suas manifestações, vale a pena meditarmos nestes conceitos de alta espiritualidade e grande sabedoria:

 

– A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas.

 

Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma.

 

E o artista verdadeiro é sempre o “médium” das belezas eternas e o seu trabalho, em todos os tempos, foi tanger as cordas mais vibráteis do sentimento humano, alçando-o da Terra para o infinito e abrindo em todos os caminhos, a ânsia dos corações para Deus, nas suas manifestações supremas de beleza, de sabedoria, de paz e de amor.

 

Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

 

 

Carl Bloch
Carl Bloch "Cristo e espinhos (olhos fechados)"