A Fome Ante o Sociólogo Espírita

  • Escreve: Humberto Mariotti (1905-1982)
  • Em: São Vicente, outubro de 2003

  • O mundo está sendo redescoberto e o que ele nos mostra é algo que não se conhecia ou se ocultava premeditadamente. O redescobrimento do mundo nos mostra uma nova geografia: a moral e a social da fome. A fome, com efeito, está ameaçando o homem como entidade social e como entidade espiritual. A fome está negando o Cristo, o Evangelho e a Lei de Justiça, de Amor e de Caridade. A fome que mata seres sem distinção de idade, nem de sexo, demonstra que o planeta está mal organizado e que “os homens amantes do progresso”, segundo a expressão de Kardec, são os encarregados de reformulá-lo sem mais perda de tempo.

    A fome não pergunta: a fome mata; a fome aniquila; a fome está presente no mundo anulando a evolução espiritual de milhões de seres. A fome está fazendo a Igreja meditar e é por isso que surge agora uma nova revolução social: a do Terceiro Mundo, baseada nos princípios do próprio Evangelho. (1)

    E enquanto o homem se desnutre por carência de alimentos; enquanto uma classe social, que é minoria, possui tudo e egoisticamente abocanha tudo para si mesma; enquanto milhões de seres se levantam enraivecidos reclamando seus direitos no grande concerto humano, penso no Movimento Espírita Internacional e nos sociólogos espíritas, desejoso de que dêem seus pareceres e apresentem soluções ante este drama universal da fome, ante os 1.700 milhões de seres humanos condenados à morte por falta de alimentos. (2)

    É imprescindível que se conheça o pensamento do sociólogo espírita sobre o drama da fome. É necessário que se fale, compreendendo que fenômeno universal se está dando no mundo e para onde se dirigem os povos. É urgente que o sociólogo espírita responda ao grito dos famintos do planeta para dizer-lhes o que pensa o Movimento Espírita Internacional sobre tão tremenda injustiça social.

    Porém, é necessário também confiar em que o sociólogo espírita não utilize esses argumentos improcedentes que surgem de arbitrárias interpretações sobre a Lei de Causa e Efeito. É preciso que o sociólogo espírita responda aos famintos, mas tendo em conta o seguinte:
    Os espiritistas já explicaram teoricamente as origens do mal e da injustiça no planeta; agora, é urgente que digam qual é a forma prática de eliminá-los para o bem do Homem e sua evolução espiritual.

    A fome é, pois, uma realidade desumana e anticristã do século 20, cujas origens se encontram na grande desigualdade social e econômica dos povos. O fenômeno da fome deve ser analisado pelo sociólogo espírita que nem por isso deve temer desvios doutrinários, seja à política ou ao comunismo. 

    O mundo de hoje é um mundo integral, único, total. O Movimento Espírita Internacional, pela Lei de Sociedade, está dentro desse mundo integral e toda a sua obra e seu desenvolvimento se realizará em meio a esse mundo total e único. Por isso, não se pode falar de desvios nem intromissões em campos que estão vedados aos espiritistas. A realidade humana e existencial é uma, e é em seu meio que atuam os espíritos encarnados e desencarnados; em conseqüência, não há um só aspecto do mundo que resulte indiferente para a atividade espírita moderna.

    Estamos em pleno mundo da política, da religião, da arte, da ciência, da técnica, das revoluções, da violência; estamos no meio da humanidade e não numa ilha. Pois tudo se corresponde e se relaciona dialeticamente no mundo moderno. Misturam-se idéias, princípios, sistemas, religiões, filosofias e de toda esta mistura só o real e a verdade permanecerão.

    O Movimento Espírita Internacional deverá prover-se em meio a este grande processo geral a fim de medir suas forças morais e espirituais com as demais correntes sociais e religiosas. O sociólogo espírita deve estar presente no confuso drama do nosso tempo. A fome, conseqüência da injusta distribuição dos bens econômicos deve ser analisada espiritamente e de acordo com a visão dos novos tempos. O Movimento Espírita Internacional deve penetrar o processo histórico para analisar os problemas contemporâneos sem temor de que se aparte das bases do kardecismo.

    É necessário compreender que a fome está ameaçando a humanidade; por isso o sociólogo espírita deve falar para apresentar soluções a este mundo de hoje em mudança.Pois, razões teve o escritor Jaime Torres Bodet (3) ao referir-se à Declaração Universal dos Direitos Humanos, quando disse:
    “Enquanto a maioria dos homens viva em fome e injustiça, para morrer na miséria e na ignorância, o documento aprovado em Paris continuará nos parecendo um ideal bastante distante”.

    A Lei do Progresso (de “O Livro dos Espíritos”) colocou frente a frente as duas visões do mundo: a do passado e a do futuro, o que define os dois tipos humanos: os homens arcaicos e os homens futurólogos. Queira o Carpinteiro de Nazaré que os sociólogos espíritas se coloquem sempre entre estes últimos.

    Notas do site Pense 

    (1) Mariotti faz referência ao surgimento da Teologia da Libertação, facção da Igreja Católica que se constituiu, no Terceiro Mundo, e especialmente na América Latina, num importante movimento de libertação social.
    (2) O autor utiliza um índice correspondente ao início dos anos 70. Hoje, segundo organismos internacionais, 826 milhões de pessoas não têm alimentação adequada que lhes permita levar uma vida normal e perto de 1 bilhão carece de água potável. Somente no Brasil existem cerca de 60 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza.
    (3) Jaime Torres Bodet (1902-1974) foi um grande poeta mexicano. Exerceu o cargo de secretário de educação pública e coordenou uma ampla campanha de alfabetização em seu país. Também desempenhou importante carreira diplomática, tendo sido Doctor Honoris Causa de várias universidades.

    Humberto Mariotti (1905-1982), poeta, escritor, jornalista, conferencista e intelectual espírita argentino. Foi presidente da Confederação Espírita Argentina de 1935/1937 e 1963/1967. Esteve, junto com Manuel S. Porteiro, no Congresso Espírita Internacional de Barcelona (1934). Foi também vice-presidente da Confederação Espírita Pan-Americana (Cepa) em duas gestões. Escreveu, dentre outras obras: Dialéctica y Metapsíquica; Parapsicologia y Materialismo Histórico; El Alma de los Animales a Luz de la Filosofia Espírita; En Torno al Pensamiento Filosofico de J. Herculano Pires; Victor Hugo, el Poeta del Más Allá.

    Texto publicado no jornal “Espiritismo e Unificação”, de Santos-SP, edição de março de 1971.

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