JOÃO AMANHÃ

 


 Há quem seja contumaz em deixar as tarefas do dia para um dos próximos. Despreocupação de trabalho e de responsabilidades, de tarefas e de aprendizado são dominantes da história que João nos contou numa reunião mediúnica de Março de 1999. 

A partir de um sofá, que para ele foi o leito de preguicite aguda que não deseja a ninguém, apela a que não se despreze o dever, já que o mesmo, quando bem cumprido, é libertador. 
 Contou-nos João que se esticava no sofá predileto assim que se abatia nele. Nada lhe dava tanto gozo como preguiçar naquele pouso a partir do qual rumava para a névoa da sonolência. Mesmo de olhos abertos, diante do televisor, quantas vezes olhava horas e horas para ele, e nada via. O resto do seu quotidiano era uma autêntica espera, até que de novo ali aportasse. 
 Numa dessas vezes, algo estranho ocorreu: de inopino, viu sentar-se no sofá diante dele uma bela senhora desconhecida, que lhe inundou a sala de luz, inebriando-lhe todos os sentidos. Diante isso, João estremeceu quando o espírito lhe falou: 
 – João, venho buscar-te… 
 – Hoje?! Hoje não! Não estou preparado. Só se for amanhã. 
 O espírito olhou-o e, tolerante, adiantou: 
 – Está bem, João. Terás ainda essa oportunidade. Amanhã a esta hora virei buscar-te. Faz os teus preparativos, fala com os teus familiares, fala-lhes da viagem que vais fazer, ultima as coisas que sempre adiaste e que é bom que fiquem em ordem. 
 O espírito nada mais lhe disse e simplesmente desapareceu. João esfregou os olhos, ajeitou-se no sofá e concluiu: “Adormeci! Mas que senhora tão bonita!”. O recheio da conversa, porém, se naquele momento caía no esquecimento, logo a seguir despenhava-se os abismos da inconsciência, quando João já se esticava no sofá levado nas brisas do sono. Nesse período, voltou a ter conversas semelhantes com outras pessoas que o visitavam: “João, não durmas! Tens muitas coisas para ultimar…”. 
 Acabou por despertar. Levantou-se e saiu da sala. Bebeu um copo de água para espevitar. No escritório procurou papéis que ali andavam à sua sorte, sarrabiscou, alinhavou outras tantas coisas. A sua ideia a de que tivera um pesadelo, nada mais do que a consciência a apontar-lhe os seus deveres. 
 De manhã, João saiu do sono acordado pela mesma senhora da véspera: 
 – João! Vamos embora, vamos partir. O trem não espera! 
 Sem oportunidade para lhe perguntar qual o destino, o nosso personagem sente um adormecimento, como se se tratasse de uma anestesia suave. 
 Depois, João vê-se num sítio de muito trabalho. Estupefato, pensa: “Isto é uma guerra! Estão aqui a chegar constantemente mutilados, feridos. Eu não vou dar conta disto… eu não tenho coragem, não vou conseguir fazer nada! Não, não quero ver sangue”. 
 Alguém lhe diz: “João, já que não queres ver sangue, pega num dos lados desta maca, que eu pego no outro, e vamos trabalhar. Há um serviço que não pode ser adiado, vamos trabalhar”. Só pensava na chegada da noite, para poder descansar. Mas passado tempo, naquele estado, reparava que não havia noite nenhuma ali! Era dia em permanência. João trabalhou, trabalhou muito. Pensava que não podia estar na Terra, mas em algum outro sítio, sem saber qual. Um pensamento dominava-o: Quero descansar! Preciso de descanso… deixem-me descansar. Já não tenho mais forças… 
 É com esses sentimentos que chega à reunião mediúnica e os seus pensamentos tornam-se palavras audíveis no mundo material pela voz do médium psicofônico. Alguém ali ao lado, ouvidas essas palavras repetidas, inicia a conversação esclarecedora: 
 – Então, amigo. Chamo-me Álvaro. Como te chamas? 
 João responde: 
 – Chama-me João Amanhã. 
 João apercebe-se agora de que está numa sala com meia dúzia de pessoas tranquilas, todas elas sentadas à volta de uma mesa. Mas, passados minutos, à medida que alarga o olhar, vê uma pequena multidão heterogênea a emoldurar a sala, para além das próprias paredes. Diante das palavras que Álvaro lhe dirige, sente que chegou a um porto de abrigo. Pouco a pouco João vai-se apercebendo de que já largou o corpo físico e que, com esperança, pode começar uma vida mais ampla e enriquecedora, de ordem espiritual. 
 À medida que o diálogo reflete mais fraternidade entre ambos, João repara que começa a ver pessoas que não via antes, que lhe sorriem e aguardam ensejo de lhe falar. No fim do diálogo, um destes espíritos dirige-se-lhe com gentileza e convida-o a acompanhá-lo, a fim de receber mais esclarecimentos para a nova vida que o aguarda além da matéria. 
 Aproveitar as oportunidades de aprender e de trabalhar não é um luxo nem uma opção meramente facultativa, mas é recurso valioso que importa não desperdiçar. Caminha-se melhor e mais depressa quando há mais luz nos caminhos que trilhamos. Há tempo para dormir. E há tempo para trabalhar. 
 
 Texto: Jorge 
 In “Revista Internacional de Espiritismo” (Brasil), edição de Julho de 2000

site de origem: http://www.adeportugal.org/mambo/index.php?option=content&task=view&id=30&Itemid=58 

 

Julien Dupre
Julien Dupre “O Descanso” (1851 – 1910) 71,12×48,26 cm

óleo s/tela

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