Ilusão

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Diálogo sobre Ilusão

 

“Rainha entre os  homens, como rainha  julguei

Que penetrasse no reino dos céus! Que desilusão!

Que humilhação, quando, em vez de ser recebida

aqui qual soberana, vi acima de mim, mas muito

acima, homens que eu julgava insignificantes e

aos quais desprezava, por não terem sangue

Nobre!”

O Evangelho Segundo Espiritismo

Capítulo 2 – item 8

 

 

O que são as ilusões?

Definamos ilusão como sendo aquilo que pensamos, mas que não corresponde à realidade. São percepções que nos distanciam da Verdade. Existem em relação a muitas questões da vida, tais como metas, cultura, comportamento, pessoas, fatos. A pior das ilusões é a que temos em relação a nós: a autoilusão.

 

Qual a causa das ilusões?

As ilusões decorrem das nossas limitações em perceber a natureza  dos sentimentos que criam ou determinam nossos raciocínios. Na matriz das ilusões encontramos carências, desejos, culpas, traumas, frustrações e todo um conjunto de inclinações e tendências que formam o subjetivo campo das emoções humanas.

 

Por que a senhora citou que autoilusão é a pior das ilusões?

O iludido pensa muito o mundo “negando” senti-lo, um mecanismo natural de defesa face às dificuldades que encontra em lidar com suas emoções. Esconde-se atrás de uma imagem que criou de si mesmo para resguardar autoridade social ou outro valor qualquer que deseje manter.

O objetivo da reencarnação consiste em desiludir-nos sobre nós mesmos através da criação de uma relação libertadora com o mundo material. Se não buscamos essa meta então caminhamos para a falência dos planos de ascensão individual.

 

Conforme a resposta anterior, o iludido esconde-se de quê?

De si mesmo. Criando um “eu ideal” para atenuar o sofrimento que lhe causa a angústia de ser o que é – a criatura foge de si e vive em “esconderijos psíquicos”.

 

Mas, por que se esconde de si mesmo?

Devido ao sentimento de inferioridade que ainda assinala a caminhada da maioria dos habitantes da Terra. Iludimo-nos através de um mecanismo defensivo contra nossa própria fragilidade que, pouco a pouco, vamos extinguindo. Negar o que se sente e o que de deseja é o objetivo desse mecanismo. Uma forma que a mente aprendeu para camuflar o sentimento de inferioridade da qual o espírito se conscientizou em algum instante de sua peregrinação evolutiva.

 

Então, iludimo-nos para sentirmos um pouco melhores, seria isso?

Autoilusão é aquilo que queremos acreditar sobre nós mesmos, mas que não corresponde à realidade do que verdadeiramente somos, é a miragem de nós próprios ou aquilo que imaginamos que somos. Uma vivência psíquica resultante da desconexão entre razão e sentimento. É a crença na imagem idealizada que criamos no campo mental. É aquilo que pensamos que somos e desejamos que os outros creiam sobre nós.

 

Nós espíritas, temos ilusão?

Responderei com clareza e fraternidade: sim, muitas ilusões. O iludido, quando ambicioso, atinge sem perceber as raias da usura; quando dominador, chega aos cumes da manipulação; quando vaidoso, guinda-se aos pântanos da supremacia pessoal; quando cruel, atola-se ao lamaçal do crime; quando astuto, atira-se às vivências da intransigência; quando presunçoso, escala os cumes da arrogância; e, mesmo quando esclarecido espiritualmente, lança-se aos píncaros do exclusivismo ostentando qualidades que, muita vez, são adornos frágeis com os quais esnobam superioridade que supõem possuir.

 

Poderia dizer a nós, espíritas, algo sobre nossas ilusões?

Existe uma tendência à autossuficiência entre os depositários do conhecimento espírita. Discursam sobre a condição precária em que se encontram assumindo a condição de almas carentes e necessitadas, todavia, diametralmente oposta a isso agem como se fossem “salvadores do mundo” com todas as respostas para a humanidade. Essa incoerência na conduta é provocada pela ilusão que criaram papel do espírita no mundo…

O Espiritismo é excelente, nós espíritas nem tanto… Nossa condição real, para quem deseja assumir uma posição ideal perante si mesmo, é a de almas que apenas começamos a sair do primitivismo moral. Alegremo-nos por isso!

 

Essa autossuficiência seria o orgulho?

O orgulho promove essa condição, é a mais enraizada manifestação da ilusão, é a ilusão de querer ser o que imaginamos que somos. Essa é a pior ilusão, autoimagem falsa e superdimensionada de nós mesmos. Essa autoilusão é sustentada por uma “cultura de convenções” acerca do que seja ser espírita, um resquício do velho hábito religioso de criar “estampas” pelas quais serão reconhecidos os seguidores de alguma doutrina. Nesse caso, a ilusão desenvolvida chama-se “ideia de grandeza”.

Muitas pessoas desejariam sair prontas para testemunho após pequenos exercícios de espiritualização no centro espírita, entretanto por ignorarem sua real condição espiritual, fazem da casa doutrinária um templo de aquisição da angelitude imediata. Querem sair prontos e perfeitos das tarefas e estudos, quando o objetivo de tais iniciativas é capacitar de valores intelecto-morais para repensar caminhos e encontrar respostas para as encruzilhadas da alma, nas refregas da existência.

 

O que é essa autoimagem falsa?

 Uma construção mental que se torna referência para nossas movimentações perante a vida. É uma cristalização mental, uma irradiação que cria uma rotina escravizante nos sentimentos permitindo-nos viver somente as emoções em “uma faixa de segurança”, a fim de não perdermos o status da criatura que suponhamos ser e queremos que os outros acreditem que somos. O que pensamos sobre nós,  portanto, determina a imagem mental indutora dos valores íntimos. Se o raciocínio sofre distorções da ilusão, então viveremos sem saber quem somos.

 

Como é construída essa autoimagem?

Através das vivências intelecto afetivas de todos os tempos desde a criação.

 

Onde ela permanece?

No corpo mental. Sua maior expressão é conhecida pelas operações do departamento da imaginação no reino da mente.

 

Quer dizer que além da autoimagem temos um “eu real” diferente do “eu crístico”, que ainda não conhecemos?

Sim. Temos um “eu real” que estamos tentando ignorar há milênios. Essa “parcela” de nós é a “sombra” da qual queremos fugir. Todavia, o contato com essa “zona inconsciente” revela-nos não só motivos de dor e angústia mas, igualmente, a luz que ignoramos estar em nossa intimidade à espera de nossa vontade para utilizá-la.

Aqui chamamos a atenção dos nossos parceiros de ideal para o cuidado com o processo da reforma interior. Existe muita idealização confundindo aprendizes que ignoram estar dando “saltos evolutivos” em direção a esse “eu real”, entretanto, em verdade, estão se movimentando na esfera do “eu idealizado”…

 

Poderia explicar mais profundamente essa questão dos “saltos evolutivos”?

É um tipo de ilusão que normalmente assalta os religiosos de todos os tempos. Imaginam-se muito melhorados a partir do contato com alguma diretriz ou prática religiosa e, então,  passam a viver uma vida idealizada, um projeto de “vir-a-ser”. É uma ilusão de que se está fazendo a renovação. Uma forma de comportar desconectada do sentimento, um adorno moral para nossas atitudes ; é o discurso sem a viv~encia. O nome mais conhecido desse comportamento é puritanismo.

 

Como distinguir idealização de mudança verdadeira?

Na idealização pensamos o que somos e, como consequência, vivemos o que gostaríamos de ser, mas ainda não somos. É o hábito das aparências.

Na reforma íntima sentimos o que somos, e como consequência vivemos a realidade do que somos com harmonia, ainda que nos cause muitos desconfortos. É o processo da educação paulatina.

Na idealização, vive-se em permanente conflito por se tratar em parte, de uma negação da realidade, enquanto na reforma autêntica a criatura consegue penetrar os meandros dos “sentimentos-causais”, encontrando uma convivência pacífica consigo e aceitando-se sem se acomodar em direção a melhoras mensuráveis.

 

Como vencer nossas ilusões? 

Desapegando da falsa autoimagem falsa que fazemos de nós mesmos. Desapaixonando-se do “eu”. Para isso somente o auto-conhecimento.  

Havendo esse desapego, conseguiremos libertar os sentimentos para novas experiências com o mundo e consequentemente com nosso “eu profundo”. Isso desencadeará um processo de resgate de nós mesmos, venceremos a condição de reféns de nosso passado escravizante, saindo da “roda viciosa da emoções” perturbadoras, quais sejam o medo, a culpa e a insegurança.

O processo da desilusão custa sorver o fel da angústia de saber quem somos, e carregar o peso do sacrifício de cuidar dessa personalidade nova que renasce exuberante. Independente do quão doloroso seja, é preferível experimentá-lo no corpo a ter que purgá-la na vida espiritual.

Assinalemos alguns exercícios de desapego dessa paixão que nutrimos pela imagem irreal que criamos de nós mesmos.

 

*Fazer as pazes com as imperfeições.

*Abandonar os estereótipos e aprender a se valorizar com respeito.

*Descobrir sua singularidade e vivê-la com gratidão.

*coragem para descobrir seus desejos, tendências e sentimentos.

*Munir-se de informações sobre a natureza de suas provas.

*Aprender a ouvir com atenção o que se passa à sua volta.

*Dominar o perfeccionismo nutrindo a certeza de que ser falível não nos torna mais inferiores.

*Valorizar afetivamente as suas vitórias.

*Descobrir qualidades, acreditar nelas e colocá-las a serviço das metas de crescimento.

 

Paulo, o apóstolo da renovação, indica-nos uma sublime recomendação que nos compele a meditar na natureza de nossos sentimentos em torno da mensagem do amor; sugerimos que esse seja nosso roteiro na vitória sobre as ilusões: “Olhai para as coisas segundo as aparências? Se alguém confia de si mesmo que é de Cristo, pense outra vez isto consigo” (…) – II Corintios, 10:7.

 

Nota da autora espiritual: as perguntas desse texto foram proferidas pelo médium. 

 

Extraído do livro: Reforma Íntima Sem Martírio

 Psicografia de Wanderley S. de Oliveira

Ermance Dufaux (espírito)

 

William-Adolphe Bouguereau
William-Adolphe Bouguereau "Ninfas e Satyr" -óleo sobre tela- 260x180 cm (1873)

 

 

 

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