Entrevista Com Dora Incontri

DORA INCONTRI – A jornalista e escritora Dora Incontri que lançou no final de 1996 o livro Pestalozzi, Educação e Ética, e nos falou sobre as influências de Pestalozzi na obra da Allan Kardec. Segundo ela, a pedagogia de Kardec deve muito à de Pestalozzi seu professor. Incontri estava começando o doutorado na Universidade de São Paulo – USP com o tema “Pedagogia Espírita”, é autora dos livros: Educação na Nova Era e Estação Terra, além de livros de poesias. Dora também ministra o curso de Pedagogia Espírita, na Feesp.

P: – Qual a maior influência de Pestalozzi no então Professor Rivail?
R: – São várias. Eu não acho que tenha sido casual o fato de ele ser mestre de Kardec, acho que ele foi realmente um precursor do Espiritismo. Uma das coisas mais impressionantes que existe de relação de pensamento é a questão do conceito de religião, porque Pestalozzi já tinha o conceito espírita de religião, uma religião natural, sem hierarquias, sacerdócio, a religião como algo íntimo de homem. O próprio fato de Kadec ter sido um educador, deu à Doutrina Espírita um caráter pedagógico. Então a Doutrina Espírita é uma proposta acima de tudo pedagógica, de educação do espírito.

P: – E sobre a pedagogia de Kardec em relação a Pestalozzi?
R: – Eu tenho alguns textos inéditos em português da época em que Kardec era educador na França. No meu curso de pedagogia na Feesp eu passo alguns desses textos. E muito interessante, são textos dele como educador. Na minha tese inclusive eu pretendo observar a continuidade de pensamento Pestalozzi-Rivail-Kardec.

P: – A organização dos livros básicos da Codificação sofreu essa influência em que sentido?
R: – Em todos os sentidos. A forma que ele escrevia é uma forma didática. Antes de se dedicar ao Espiritismo ele escreveu muitas obras didáticas. A maneira de ensinar a Doutrina Espírita já é uma maneira bastante pedagógica. Outra influência é a síntese do conhecimento. Kardec foi realmente um educador. Como educador ele tinha uma visão de síntese do conhecimento. Se Kardec fosse apenas cientista, ou um filósofo, ou um sacerdote, ele teria destacado apenas aspectos específicos. Como educador ele ficou no equilíbrio da síntese, unindo todas as áreas do conhecimento.

P:- Como foram seus primeiros contatos com as idéias de Pestalozzi?
R: – Através do Espiritismo. Eu escrevi meu primeiro livro sobre educação quando tinha 21 anos de idade, ainda cursando a faculdade. Foi Educação na Nova Era, que lancei em 1984. Nesse livro já coloquei uma pequena pesquisa sobre Pestalozzi. Mandei vir alguns livros da Alemanha e fiz um capítulo sobre Pestalozzi, dizendo que para se formular uma pedagogia espírita teria que se buscar as raízes nele, pois Kardec foi seu discípulo e Pestalozzi foi um dos maiores educadores da humanidade.

P: – Como foi a pesquisa para escrever o livro?
R: – Fui à Europa duas vezes, falei com especialistas em Pestalozzi, peguei as obras dele em alemão, que são obras difíceis, escritas em alemão do século XVIII. O livro, na verdade, analisa o pensamento de Pestalozzi. No final tem uma antologia de textos dele, trazidos pela primeira vez para o português.

P:- Você já vem trabalhando com educação há muitos anos?
R: – Sim, esse livro é minha tese de mestrado em educação. Depois que eu terminei a faculdade comecei a escrever em jornais só sobre educação, mas vi que tinha que aprofundar no assunto e fui fazer mestrado na USP. Já naquela ocasião a minha intenção era fazer o mestrado sobre Pedagogia Espírita, mas não foi aceito. Então eu fiz um tema que tinha a ver com o assunto, que foi Pestalozzi. Agora consegui entrar para fazer o doutorado, onde estarei defendendo minha tese sobre Pedagogia Espírita.

P:- Por que existe essa barreira contra o tema?
R: – Preconceito. Muita gente acha que o Espiritismo é uma seita e não tem conteúdo filosófico para sustentar uma tese. Eles aceitam muitas vezes em estudo antropológico ou sociológico, que encara o Espiritismo apenas como movimento de massa, movimento religioso. Mas ao tomar o Espiritismo como uma filosofia para ser analisada, que é o que eu vou fazer, surgem os maiores preconceitos. Pouco a pouco nós vamos entrando nas universidades, mas o importante é não perder a caracterização espírita e deixar-se contaminar pelo discurso acadêmico.

P: – Que tipo de contaminação?
R: – Eu acho que o Espiritismo tem que se abrir para o diálogo com o conhecimento atual. Por exemplo, Herculano Pires sabia fazer essa ponte entre o conhecimento espírita e toda a história da filosofia, filosofia contemporânea, ele sabia muito bem unir as coisas sem perder a fidelidade a Kardec, às Obras Básicas, à Doutrina Espírita. Às vezes certas pessoas perdem por não resistir à pressão do meio acadêmico.

P: – Qual a necessidade e quais as características de uma pedagogia espírita?
R: – O Espiritismo tem de dar uma colaboração para transformar todas as áreas do conhecimento. Ele tem algo a acrescentar a todas elas. E no ramo da pedagogia, principalmente. As principais vertentes da pedagogia moderna, a idéia de que a criança aprende fazendo, são idéias que vem da tradição, platônica, russeauniana, pestalozziana. A mesma tradição em que se insere o Espiritismo. A essa tradição o Espiritismo acrescenta dados, outra visão de mundo que a pedagogia não tem, a visão da criança como um ser encarnado, como um ser transcendente, como um ser interexistencial, que é um ser espiritual. A pedagogia espírita pode alargar os horizontes da visão do homem. Não só educar para ser um cidadão, mas para seu desabrochar evolutivo.

P: – Como seria uma escola moldada nesse sistema?
R: – Em primeiro lugar qualquer escola teria que mudar completamente. O modelo tradicional de escola não serve mais. Isso todos, mesmo não espíritas, sabem. Crianças ficarem sentadas ouvindo professor falar, não serve mais. A escola espírita teria de ser revolucionária, mesmo dentro de um sistema tradicional. Acrescentando-se ainda a visão da criança como um ser responsável, que já traz uma bagagem, devendo ser estimulada em suas tendências inatas, em suas vocações. Nada de salas de aula tradicionais, mas através de passeios, laboratórios, como o próprio Pestalozzi fazia. Deveria também entrar a visão espírita do mundo, não seriam “aulas” de Espiritismo, como uma catequese, mas uma visão dentro da educação.

P: – O que seria diferente, por exemplo, no ensino de álgebra?
R: – Tudo deve partir da experiência e da observação, nada de maneira abstrata, de acordo com a necessidade de aplicação. Usando o exemplo da álgebra, existe uma escola aqui em São Paulo que faz projetos de engenharia, monta brinquedos, telégrafos, coisas que funcionam. Na montagem dessas coisas usam matemática, desenho industrial. A escola deveria ser toda direcionada para a ação. Aprende-se fazendo.

P: – E as avaliações, como seriam?
R: – É um absurdo toda essa maneira de se avaliar sobre conteúdos decorados. Avaliação tem que serem cima de trabalhos, de projetos, de produção, de criatividade, com uma análise do desenvolvimento do aluno, não simplesmente dando aquelas notas sobre conteúdos decorados. Isso não avalia ninguém. Em Yverdon não existia nota, recompensa, castigo. O que se propunha era justamente o contrário, o ensino mútuo, aqueles que se destacavam em determinado assunto ajudavam os outros.

via

Emile Munier, "O SALVAMENTO", 1894, óleo sobre tela, 187,3 x 101, 6 cm.
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