Na Intimidade do Mestre

… E porque o aprendiz perguntasse ao Mestre o motivo pelo qual fora chamado ao seu campo de ação, respondeu o Senhor, compassivamente: –
– “Decerto, não foste convidado a criticar, porque, para isso, a Terra dispõe daqueles que transitam entre a malícia e o azedume…
Com certeza não foste trazido à Revelação para apedrejar o próximo infeliz, porquanto, para esse fim, a crueldade ainda campeia no mundo, usando corações cristalizados na indiferença…
Indiscutivelmente, não foste citado para fortalecer a ingratidão e a calúnia, de vez que para estendê-las a Humanidade ainda conta com milhares de criaturas entregues à leviandade e à maledicência…
Sem dúvida, não foste convocado para descobrir as cicatrizes e as chagas de nossos irmãos, porque, para esse mister, possuímos a legião daqueles que se imobilizam na procura do mal…
Chamei-te para abençoar onde outros amaldiçoam, para justificar onde muitos reprovam e condenam…
Busquei-te para auxiliar com a boa palavra onde o verbo envenenado espalha fogo e fel, convidei-te para o socorro aos ausentes, necessitados de entendimento e compreensão…
Trouxe-te à verdade para que as feridas de nossos semelhantes encontrem bálsamo e para que a doença deles receba em ti remédio salutar…
Concitei-te para que haja fraternidade onde a separação ainda persista, para que a paciência brilhe contigo onde brade a revolta e para que a esperança não se apague onde corre, desapiedado, o sopro frio do desânimo…
Ninguém te chamou para avivar entre os homens o incêndio da perversidade, do egoísmo, da violência e do ódio, mas sim para que a Bondade Infinita do Céu em ti encontre justo sustentáculo para exprimir-se no mundo com o esplendor que lhe é própria.
Se aspiras, portanto, a condição de escolhido para a Vitória com as Leis Divinas, abandona as exigências do espírito de domínio que, porventura, ainda vibrem por dentro de ti…
E, fiel aos compromissos que abraçaste no Evangelho Renovador, sentirás na intimidade do coração a felicidade suprema do amigo fraternal que acende em si próprio o fulgor da luz celeste…”
Foi então que o aprendiz penetrou o santuário de si mesmo e passou a meditar…

Xavier, Francisco Cândido. Da Obra: “Abrigo”. Ditado pelo Espírito Emmanuel

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Jean-Leon Gerome "Acampamento Árabe", 1895, óleo s/tela, 82 x 50 cm.

Guardemos o Cuidado

… mas nada é puro para
os contaminados e
infiéis.
(Paulo. Tito, 1:15)


O homem enxerga sempre, através da visão interior.

Com as cores que usa por dentro, julga os aspectos de fora.

Pelo que sente, examina os sentimentos alheios.

Na conduta dos outros, supõe encontrar os meios e fins das ações que lhe são peculiares.

Daí, o imperativo de grande vigilância para que a nossa consciência não se contamine pelo mal.

Quando a sombra vagueia em nossa mente, não vislumbramos senão sombras em toda parte.

Junto das manifestações do amor mais puro, imaginamos alucinações carnais.

Se encontramos um companheiro trajado com louvável apuro, pensamos em vaidade.

Ante o amigo chamado á carreira pública, mentalizamos a tirania política.

Se o vizinho sabe economizar com perfeito aproveitamento da oportunidade, fixamo-lo com desconfiança e costumamos tecer longas reflexões em torno de apropriações indébitas.

Quando ouvimos um amigo na defesa justa, usando a energia que lhe compete, relegamo-lo, de imediato, à categoria dos intratáveis.

Quando a treva se estende, na intimidade de nossa vida, deploráveis alterações nos atingem os pensamentos.

Virtudes, nessas circunstâncias, jamais são vistas.

Os males, contudo, sobram sempre.

Os mais largos gestos de bênção recebem lastimáveis interpretações.

Guardemos cuidado toda vez que formos visitados pela inveja, pelo ciúme, pela suspeita ou pela maledicência.

Casos intrincados existem nos quais o silêncio é o remédio bendito e eficaz, porque, sem dúvida, cada espírito observa o caminho ou o caminheiro, segundo a visão clara ou escura de que dispõe.

Xavier, Francisco Candido. Da obra: Fonte Viva. Ditado pelo Espírito Emmanuel. 21 edição. Lição 34. Rio de Janeiro, RJ: FEB. 1997.

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Jean-Léon Gérôme
Jean-Léon Gérôme, "RETRATO DE UMA SENHORA", c. 1866-1870, óleo s/tela, 54 X 36 cm.